14 março, 2014

Agora juntas ao teu peso                         
tudo o que é leve,                                                       (para F.)

agora desmascaras
o sempre nomeado
mas sem nome,
agora mandas os martelos-
mecânicos, os fura-sílabas
para debaixo do esporão
daquele
que te leva a saltar para o outro lado
da ardilosa madeira da sebe,

agora
escreves.

Paul Celan, A Morte É Uma Flor

13 março, 2014

O poema, (...)  pode ser uma mensagem na garrafa, lançada ao mar na convicção - decerto nem sempre muito esperançada - de um dia ir dar a alguma praia, talvez a uma praia do coração.Também nesse sentido, os poemas estão a caminho - têm um rumo.

Paul Celan, Arte Poética

12 março, 2014

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema.

Paul Celan, Carta a Hans Benderm

Paul Celan, foto do passaporte, 1938

11 março, 2014

Prognóstico


Sou do tempo em que não se corrigiam
dentes defeituosos.
Além disso, perdi praticamente
todos os molares.
Para piorar as coisas,
a TAC acusa um desvio para a esquerda
do septo nasal.
Ainda por cima, um desvio acentuado.
Bonita caveira hei-de dar,
não haja dúvida.

A.M. Pires Cabral, As Têmporas da Cinza

10 março, 2014

CT, 2014, dia de sol (da série desenhos de maio)

Robert Rauschenberg, 1963



































ENCONTRO

Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele.
Talvez se tenha esquecido do relógio,
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo.
Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho.
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral
ou que a mãe dele tinha morrido.
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido.
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder
a cabeça debaixo de uma almofada.
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também.
Talvez o semáforo permanecesse vermelho.
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler,
houvesse um programa que ele queria acabar de ver,
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta,
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e
o cão dele de repente começasse a vomitar.
Talvez não houvesse um telefone por perto,
não encontrasse o restaurante
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez – a última possibilidade,
incompreensível e inesperada –
ele tenha deixado de me amar.


Hagar Peeters, "Por Hoje, Chega de Poesia Sobre o  Amor" (em Poesia Ilimitada )

09 março, 2014

Georges Lacombe, La Foret au Sol Rouge,1891

08 março, 2014

Franz Lerch, "Mulher com Chapéu", 1929

Para a Graça, ao sol.

07 março, 2014

Um ramo com trinta anémonas azuis.
Uma com o caule quebrado em vários sítios,
cada quebra dá-lhe um movimento diferente.
Assim é ela a única flor que olha lá para fora.
Não penses logo: é o poeta. Ele ainda não sabe
não sabe com qual das trinta se identifica mais.
Ainda não sabe sequer que mais logo
receberá anémonas azuis.

Judith Herzberg, O Que Resta Do Dia
Nunca ninguém tem a certeza de nada,
de ser amado, de ser abandonado
tudo é possível e tudo é permitido
tudo sucede em alternância.

Agora me lembro o que queria dizer:
enquanto isso não trouxer infelicidade
é uma sensação agradável. Mas no fundo
somos doces como Turkish Delight
numa lata cheia de pregos.

Judith Herzberg, O Que Resta Do Dia

Judith Herzberg, por Chris van Houts

Egipto, dinastia 18, c.1353-1336 a.c.

06 março, 2014


Contar os grãos de areia destas dunas é o meu ofício actual. Nunca julguei que fossem tão parecidos, na pequenez imponderável, na cintilação de sal e oiro que me desgasta os olhos. O inventor dos jogos meu amigo veio encontrar-me quase cego. Entre a névoa radiosa da praia mal o conheci. Falou com a exactidão de sempre:
«O que lhe falta é um microscópio. Arranje-o depressa, transforme os grãos imperceptíveis em grandes massas orográficas, em astros, e instale-se num deles. Analise os vales, as montanhas, aproveite a energia desse fulgor de vidro esmigalhado para enviar à Terra dados científicos seguros. Escolha depois uma sombra confortável e espere que os astronautas o acordem».

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético
CT, 2014, março (da série "desenhos de maio")

05 março, 2014

André Breton por Man Ray, 1935

Uma palavra e tudo está salvo
Uma palavra e tudo está perdido.

André Breton, "O Revólver de Cabelos Brancos"

04 março, 2014

(...)  
O sentido do raio de sol
  O clarão azul que liga as machadadas do lenhador
  O fio do papagaio de papel em forma de coração ou de laço
  O batimento ritmado da cauda dos castores
  A diligência do relâmpago
  O arremesso de confeitos do alto das velhas escadas
  A avalanche

A câmara dos sortilégios
Não cavalheiros não é a oitava Câmara
Nem os vapores da camarata ao domingo à noite

  Os passos de dança transparentes por cima dos mares
  A demarcação na parede dum corpo de mulher ao lançar de punhais
  As claras volutas do fumo
  Os anéis do teu cabelo
  A curva da esponja das Filipinas
  Os nós da serpente vermelha
  A entrada da hera nas ruínas
  Tem todo o tempo à sua frente
  O abraço poético como o abraço carnal
  Enquanto dura
  Impede toda a fugida sobre a miséria do mundo


André Breton, "Poemas"
Paul Eluard e André Breton, por Man Ray, 1930

Gala e Paul Eluard, 1912-13

03 março, 2014

Nush e Paul Eluard



























Ela está de pé nas minhas pálpebras
com os dedos nos meus entrelaçados.
Ela cabe toda em minhas mãos,
ela tem a cor dos meus olhos
e desaparece na minha sombra
como uma pedra sobre o céu.

Tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
fazem os sóis evaporar-se,
fazem-me rir, chorar e rir,
falar sem ter nada a dizer.

Paul Eluard, "Algumas das Palavras"
(...)
Canto a grande alegria de te cantar,
A grande alegria de te ter ou te não ter,
A candura de te esperar, a inocência de te conhecer,
Ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e a ignorância,
Que suprimes a ausência e que me pões a cantar
O mistério em que o amor me cria e me liberta.

Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu próprio.

Paul Eluard, "Algumas das Palavras"


Nush e Paul Eluard

01 março, 2014

Robert Doisneau, 1959