17 abril, 2012

a voz 11-20


11.
para os que querem saber
mostra-lhe o que vagueia
sem voz.


12.
costurar
o dia à noite.



13.
criação de um curso de água
junto à voz.



14.
chamei-lhe
flor
ou abismo?



15.
uma das notícias
do espelho
é sempre nova.



16.
penso em  desenhar
a giz
num sopro de ar.



17.
acima das nossas cabeças
bem acima das nossas forças.



18.
pelo que é claro
observo.




19.
uma flauta
num curso de água
através do deserto



20.
assim conseguíssemos ter
a aridez e a desolação.

16 abril, 2012

a voz 1-10


a voz
cristina tavares, 2011

1.
a voz
o veludo


2.
seguindo um cálculo rigoroso
o homem desenterra uma estátua
suja, partida, imprecisa.



3.
as abelhas
reúnem-se em segredo
todos os dias no mesmo sítio.



4.
suster as lágrimas
suprir a ausência de ar
subida ao Vesúvio.



5.
disse que não sabia nada
das classes altas do sol,
mas estendia os anéis à luz.



6.
a voz é um passageiro do ar.



7.
fiquei a saber muitas coisas
passei a sentir tudo.



8.
quando chovia
ou então nas pontes
ouvíamos
de relance
os mesmos pensamentos.



9.
nunca ninguém ensinou
a desfazer os nós dos dedos.



10.
a altura de deus mede-se
pelo tamanho do seu rasto.

15 abril, 2012

belos disparates de amor (81 a 85)


81.
ajudo a atravessar a rua
os que salvarão os cegos de cair.


82.
hoje
quem reparou
no ramo de nuvens
a dormir?


83.
deve realmente amar o chão
o alto sol.


84.
como outro qualquer insecto
os meus dedos mal reagem à leveza.


85.
tu dás-me vontade
de continuar a escrever.


14 abril, 2012

belos disparates de amor (71 a 80)


71.
para significar o que é uma promessa
aponto o que foi cumprido.


72.
uma bela pintura não se deve 
recomendar a ninguém.
é preciso fazer figas
e esperar que a descubram.


73.
é crescente
o meu entusiasmo
pela lua nova.


74.
é imperdoável não perdoar.


75.
tive de dizer
bom dia
à noite.


76.
acho que os rapazes pequenos
ouvem melhor o que não é dito.


77.
íamos de vez em quando
respirar sobre os túmulos dos poetas.


78.
tive a sorte de percorrer o mundo
das rosas.


79.
continuo a dizer
acompanha-me.


80.
insondável
o escaravelho
não responde ao eco.

13 abril, 2012

belos disparates de amor (61 a 70)


61.
um bandido mascarado
a dor.


62.
no coração de ticiano
apoiam-se duas andorinhas.


63.
esforcei-me muito por aprender a amar
o vento.


64.
não sei como descrever
a maneira como fechas o olhos.


65.
temos a mesma idade
mas falamos de maneira diferente
da fidelidade ao ar.


66.
pequenas aquisições de glória
estes malmequeres.


67.
todos os mestres antigos sabiam
descobrir o mundo
debaixo de uma folha.

68.
sempre que exulto
com a luz da manhã
alguém escurece.


69.
como se me pudesse esquecer
das flores da cerejeira.


70.
ando a aprender a fazer
origami dos meus pensamentos.

12 abril, 2012

belos disparates de amor (51 a 60)


51.
consigo escrever a tua morada em
francês,
vês?



52.
ocupam cerca de trezentas salas
todas as cartas
que me escreveste.


53.
não visitámos veneza.
havemos de lá voltar um dia.


54.
no bolso do peito
80 pulsações por minuto.


55.
habituei-me tanto
a ti como ao sol.


56.
do alto desta janela
vejo o mausoléu de paul éluard.


57.
quando te escrevia tudo
desconfiava do tudo.


58.
aqui repousa
o irmão do silêncio.


59.
andava com envelopes
e selos estrangeiros nos bolsos
enquanto mergulhava.


60.
jamais existiu essa palavra que me deste.

11 abril, 2012

belos disparates de amor (41a 50)


41.
prefiro avançar diretamente
para o sonho.


42.
uma gravata branca no peito da andorinha noiva.


43.
preocupo-me com as migalhas.



44.
foi uma festa magnífica,
o silêncio.


45.
a mão do meu rival
fez murchar a relva.


46.
a verdade
acena-me para sempre.


47.
lemos, fumamos,
espreitamos pela janela,
damos que pensar,
ah o poder ilimitado do líquido amor.


48.
uso só um remo
como nas gôndolas
ah o poder ilimitado do líquido amor.


49.
nós estamos encantados.
só que não sabemos.


50.
estou a supor que me ouves,
náutilo
minha irmã.

09 abril, 2012

belos disparates de amor (31 a 40)


31.
as laranjas doces
olham para o espelho polido
da minha boca.


32.
onde é que começa a realidade
e acaba o reflexo?
diz lá outra vez.


33.
luzes e sombras
guardadas
nos olhos fechados.


34.
não retiro uma só flor ao teu nome.


35.
vigora
ainda
a lei da água cristalina.


36.
comia de bom grado
a fome.


37.
ajudei os gafanhotos a mudar de cor.


38.
volto à comparação
dos sons com que digo
o teu nome.


39.
um par de anos
um par de meias
um par de dedos
um par de despedidas.


40.
anoitecer.
levantou-se o ouro
e foi para casa.

08 abril, 2012

belos disparates de amor (21 a 30)


21.
o melhor a fazer é tecer de ouro
as tuas palavras.


22.
contei de novo
pelos dedos
quinze mil espécies
diferentes
nos meus sonhos.

és muito variado.


23.
no chão de mármore os teus pés de ouro. 


24.
a maior parte do braço nu
está sobre a mesa
na toalha pálida da confiança.


25.
todas as veias, artérias ,
músculos e tendões
aceitam a minha nova condição
de pedra.


26.
parecia uma réplica exacta
mas algo não batia certo.


27.
não fui capaz de anotar tudo
mas fiz o meu melhor
quando é que volta o jardineiro?


28.
ficou com o beijo.
e com um molho de chaves inúteis.



29.
debruçou-se da janela e gritou
em direção às nuvens velozes.


30.
um grupo de polícias
explicava porque é que era manhã.