15 julho, 2017

Ainda Ritzos

Uma Palavra

Depois de esgotar tudo à sua volta e dentro de si,
e quando estava como que a naufragar,- então lembrava-se de pronunciar
uma única palavra : estátua ( e, naturalmente, pensava
em estátua grega, nua). E logo à sua volta
se abriam nomes-ilhas: um joelho brilhava
frente ao mar, a aljava do pequeno arqueiro
distinguia-se enterrada num montículo de areia fina.
Vestia-se, saía para a Ágora. "Bom dia", dizia.
Talhos, olarias, frutarias. Comprava uvas,
libertando aquele profundo, sereno e inesgotável
gesto dum braço de mármore amputado

Giánnis Ritsos, em Poesia-Mais-Que-Perfeita (trad. Alda Leal)


14 julho, 2017

Carlos de Oliveira

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não dorme pensa: "o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração."

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético


13 julho, 2017

Mas as outras

Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
                                         Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como o soluço de um pássaro.Não sei que quer dizer este ruído;contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-tas,
sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completava
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.


Giánnis Ritsos (trad. Eugénio de Andrade), Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro 

12 julho, 2017

Giánnis Ritsos



















As palavras têm outra casca
lá mais para dentro
como as amêndoas 
e a paciência.


Giánnis Ritsos, em Poesia-Mais-Que-Perfeita (trad. Alda Leal)

poetas que se reconhecem



Facilmente, entre eles, os poetas se reconhecem - não
por grandes palavras que deslumbram as pessoas, não
por gestos retóricos, apenas por algo
completamente trivial, de místicas dimensões, como Ifigénia
reconheceu imediatamente Orestes, mal ele lhe disse:
"Não eras tu que bordavas, no pátio, à sombra do choupo,
com belas cores, com alva tela,
o movimento errante do sol?" E ainda:
"Não estava a um canto do teu quarto, guardada,
a velha lança de Pélope?" E então ela
logo se inclinou sobre o seu ombro, cerrando os olhos,
a uma luz profunda, doce, como se o ensanguentado altar
ficasse todo coberto com essa alva tela que ela mesmo bordava
à sombra do choupo, nos quentes meios-dias, na pátria.

Giánnis Ritsos, em Poesia-Mais-Que-Perfeita (trad. Alda Leal)

11 julho, 2017

Insaciável a dar

Insaciável a dar - algumas vezes até coisas
que não lhe pertenciam - como aquela montanha, por exemplo,
cor de malva no crepúsculo, com árvores de esmeralda, gravada
em vapores doirados: ou a sombra da andorinha nas espigas,
ou a forquilha caída, à noite, frente à cancela do jardim,
ou cabelos da bela mulher no acto de dizer "não".
Quanto às suas coisas - quais suas coisas? - não ficava com nenhuma;
Mantinha-se do que dava. E quando, alguma vez,
já nada tinha, cerrava os olhos, esperando
inventar algo muito maior do que ele próprio, e dá-lo.
Precisamente então, sentia que ele era aquele.

Giánnis Ritsos, em Poesia-Mais-Que-Perfeita (trad. Alda Leal)

10 julho, 2017

Giánnis Ritsos


Creio na poesia, no amor, na morte,
e por isso mesmo creio na imortalidade. Escrevo um verso,
escrevo o mundo: existo; existe o mundo.
Da ponta do meu dedo mínimo corre um rio.
O céu é sete vezes azul. Esta pureza
é de novo a primeira verdade; a minha última vontade.



Giánnis Ritsos, em Poesia-Mais-Que-Perfeita (trad. Alda Leal)

25 junho, 2017

Ana Cristina César

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas



Ana Cristina César, Poética

24 junho, 2017

Mbate Pedro



oh como são inúteis e reluzentes os materiais do amor

Mbate Pedro, Vácuos



Cristina Tavares, Blurred Freesias, 2017

23 junho, 2017

Mbate Pedro

procuro uma mulher febril que saiba entrar dentro do meio-dia e espantar-se

Mbate Pedro, Vácuos



Ellsworth Kelly, Cyclamen (detalhe), c.1964-65




21 junho, 2017

Matisse a pintar

Matisse a pintar, fotógrafo desconhecido, c.1919

20 junho, 2017

Annegret Soltau

Annegret Soltau, Selbest, 1975

19 junho, 2017

André Malraux

Maurice Jarnoux,André Malraux seleccionando fotografias para O Museu Imaginário, c.1947

18 junho, 2017

Michaux e Remarque


Henri Michaux, s/ título, 1960
















Estamos desamparados como as crianças e experientes como os velhos: somos grosseiros, tristes e superficiais; creio que estamos perdidos.

Erich Maria Remarque, A Oeste Nada de Novo (trad. Mário C. Pires)




Henri Michaux, s/ título, c. 1950

17 junho, 2017

Rita e Henri


Hei de inventar outro nome para isso que morre
na virada do dia e renasce bicho difuso, ainda sem
penugem, sem consciência
da metamorfose que guarda em si.


Rita Isadora Pessoa

Matisse, Roses

16 junho, 2017

15 junho, 2017

Noémia de Sousa





















Noite morna de Moçambique
e sons longínquos de marimba chegam até mim
- certos e constantes -
vindos nem eu sei de onde.
Em minha casa de madeira e zinco,
abro o rádio e deixo-me embalar...
Mas vozes da América remexem-me a alma e os nervos.
E Robeson e Maria cantam para mim
spituals negros de Harlém.
Let my people go
- oh deixa passar o meu povo,
deixa passar o meu povo -,
dizem.

(...)


~~



Um só ínfimo grão d'areia

nunca imaginei
pesar tanto.


Noémia de Sousa, Sangue Negro



13 junho, 2017

home 90

CT, para Antónia, 2016

11 junho, 2017

Elisabeth Pulman

Elisabeth Pulman,The Maori girls Hereni and Rowanga, 1889